Roberto Senna Trindade, com 45 anos, passou 8 meses enfrentando a vida nas ruas do Distrito Federal, após uma ruptura em sua vida familiar. Recentemente, ele obteve abrigo em um albergue, após buscar ajuda na Promotoria de Defesa dos Direitos Humanos do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios e na Defensoria Pública local.
Na última segunda-feira (27), Roberto se levantou cedo para participar, no centro de Brasília, do 12º mutirão de serviços destinados a atender a população em situação de vulnerabilidade social. Essa iniciativa foi organizada pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) e contou com a colaboração direta de 62 instituições.
Como cadeirante, Roberto procura por direitos que ainda não conseguiu receber, como um documento de identidade de pessoa com deficiência (PCD) e auxílio para aluguel, ou inclusão em programas habitacionais. Ele também aproveitou a oportunidade para solicitar a transferência de renda do programa federal Bolsa Família e obter um cartão de transporte público gratuito.
“Estou aqui para entender o que será da minha situação. Precisamos de incentivos para retornar ao mercado de trabalho, para conseguir ter um lar, por exemplo,” exigiu Roberto Senna.
Documentação, cidadania e dignidade
No evento em Brasília, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) apresentou nacionalmente o programa Registre-se Pop Rua, com o intuito de anular o sub-registro civil de nascimento e facilitar o acesso à documentação essencial para populações em situação de vulnerabilidade socioeconômica.
De acordo com o CNJ, a ausência de documentos é uma barreira estrutural que mantém pessoas em situação de rua e vulnerabilidade fora da sociedade, sem acesso a serviços básicos como saúde, emprego, justiça e programas sociais.
Essa iniciativa conta com a participação do poder Judiciário em todas as 27 unidades federativas. Anualmente, cada tribunal estadual deverá realizar quatro mobilizações de registros civis importantes.
A desembargadora Agamenilde Dias Arruda Vieira Dantas, juíza auxiliar da Corregedoria Nacional do CNJ, esclareceu que a política de registro reforça a cidadania.
“O CNJ almeja resgatar, fortalecer e proporcionar dignidade a essas pessoas neste projeto de inclusão e valorização da humanidade. Portanto, direcionamos nosso olhar para aqueles que são invisíveis para a sociedade. Em grandes centros urbanos, essas situações tornam-se ainda mais camufladas.”
Além do registro civil, o Registre-se Pop Rua também ofereceu atendimentos jurídicos, sociais e educativos.
Vindo de São Sebastião, a 21 quilômetros do centro de Brasília, Peter Aparecido Jesus aproveitou a oportunidade para esclarecer uma pendência em um processo judicial no Tribunal de Justiça da Bahia.
“Preciso saber se é possível transferir o processo em segredo de justiça de lá para cá, para Brasília. Este é um problema que enfrento em minha terra.”
Ele chegou ao local do mutirão acompanhado de sua filha Sara, que tem apenas 23 dias, e da mãe da bebê. Além de resolver sua questão judicial, Peter também buscou junto ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) a aposentadoria por incapacidade permanente devido a um agravamento em sua coluna, consequência de uma antiga atividade como auxiliar de pedreiro. Sua expectativa é que esse benefício previdenciário ajude na manutenção da nova filha.
Segunda chance
José Adilson Ribeiro Costa, de 56 anos, que vive nas ruas há 14 anos, também recebeu atendimento no mutirão em Brasília. Após o Carnaval, ele foi atropelado em uma estrada e sofreu fraturas sérias no pé (tornozelo e dorso), o que o impede de se locomover e trabalhar.
Sua principal motivação é assegurar seu sustento enquanto se recupera, através do auxílio por incapacidade temporária. Por isso, ele solicitou assistência aos profissionais de saúde do mutirão para organizar seu laudo médico, que é um documento crucial para fazer a solicitação do benefício no INSS.
José descreve a experiência de viver nas ruas como um exercício de convivência e respeito para lidar com o preconceito, que ele considera algo “normal” em seu dia a dia.