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Direitos do Cidadão

Empresários que apoiaram ditadura têm raízes em famílias escravistas

Gabriel Aires
Atualizado em: 27 de abril de 2026 7:07 pm
Gabriel Aires
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Pelo menos dois terços dos empresários identificados pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) como apoiadores do regime militar têm raízes em famílias que estiveram envolvidas com a escravidão.

Sumário
Lógica da extraçãoImobilidadeFamília Bueno VidigalGreve de 1968Operação BandeirantesHerança escravocrataOutro lado

O capítulo Civis que Participaram da Ditadura do relatório final da CNV elenca as empresas que financiaram a ditadura de várias maneiras. Dentre os 62 empresários mencionados no documento e cuja árvore genealógica foi reconstituída pela reportagem, pelo menos 40 pertencem a famílias de senhores de escravos.

A pesquisa inédita foi realizada para o episódio Como Nossos Pais, da segunda temporada do podcast Perdas e Danos, que investiga o suporte oferecido pelas empresas ao regime militar.

 

“O que percebemos é que a elite tradicional no Brasil mantém um núcleo sólido desde a época colonial em todas as regiões”, afirma o coordenador do Núcleo de Estudos Paranaenses e especialista em genealogia do poder, Ricardo Oliveira.

“Se você retrospecta algumas gerações, geralmente um avô ou bisavô das pessoas nascidas em 1950 está vinculado ao senhoriato escravista de suas regiões”, testemunha.

Foram incluídos na pesquisa apenas os empresários cujos antepassados puderam ser confirmados, através da verificação de certidões de nascimento, atestados de óbito, livros de batismo e outros documentos disponíveis no Family Search, um site de genealogia gerido pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

Alguns sobrenomes famosos, como o da família Guinle de Paula Machado, que outrora possuía o Porto de Santos; e Batista Figueiredo, que além de ter sido o último ditador militar, contava entre os herdeiros com o vice-presidente da Bolsa de Mercadorias de São Paulo.

Além disso, estão na lista a Família Beltrão, de Pernambuco, cuja prole inclui Hélio Beltrão, executivo do Grupo Ultra e ministro do Planejamento do ditador Costa e Silva; e a família Vidigal, proprietária do Banco Mercantil e da Cobrasma, a Companhia Brasileira de Material Ferroviário.

Lógica da extração

Para o professor de filosofia política da Unifesp e coordenador do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF) Edson Teles, a lógica da extração define o modelo econômico da ditadura:

“Extrair é o verbo primordial do modelo econômico da ditadura. Extrair como ação central e, em muitos casos, quase exclusiva.” 

Teles estabelece um paralelo entre o modelo e a tradição escravista, onde não se extrai apenas da terra, minério, água e matéria-prima, mas também dos próprios trabalhadores.

“Exploitar o corpo do trabalhador sem considerar seus direitos ou dignidade, caracterizando o trabalho análogo à escravidão e a violação direta de direitos, ou ainda, as violências mais graves. Isso faz parte do processo de extração”, conclui.

Edson liderou a equipe de pesquisadores encarregados do estudo mais abrangente realizado até hoje no país sobre as interações entre a ditadura militar e as empresas nacionais e internacionais. Para ele, a colaboração entre o poder econômico e o regime autoritário tinha um destino: os trabalhadores.

“A conexão mais próxima entre empresas e ditadura se manifestou precisamente no ataque à organização dos trabalhadores. Imediatamente após o golpe, em abril de 1964, 20 mil indivíduos foram encarcerados em um mês. É um número elevado. A grande maioria, trabalhadores sindicalizados”, recorda.

De acordo com o professor Marco Antônio Rocha, do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), após dois anos do golpe, o poder aquisitivo do salário mínimo caiu pela metade.

“O que o governo fez foi alterar a política de indexação do salário mínimo em relação à inflação. Com a inflação já elevada, o salário mínimo se defasou rapidamente. Em um ou dois anos, perdeu cerca de 50% do seu poder aquisitivo”, esclarece.

A desigualdade, por sua vez, aumentou. Dados do IBGE mostram que em 1960, 5% dos brasileiros mais ricos detinham 28% da renda nacional. Em 1972, essa porcentagem subiu para quase 40%.

Imobilidade

A prevalência das mesmas famílias ao longo de séculos nas altas esferas do poder ilustra um país onde o elevador social está quebrado.

Conforme a OCDE, uma organização que agrupa 38 países considerados ricos, no Brasil, um indivíduo nascido em situação de pobreza leva nove gerações para alcançar a classe média. Isso representa aproximadamente 300 anos. Brasil, Colômbia e África do Sul se destacam pela imobilidade social.

“Para compreender o Brasil e sua elevada desigualdade social, assim como a violência simbólica, social, política e real, é imprescindível entender essas famílias”, avalia Ricardo Oliveira.

Família Bueno Vidigal

A reportagem de Perdas e Danos dedicou-se a investigar a família Bueno Vidigal com o objetivo de compreender melhor o mecanismo que mantém as desigualdades.

A escolha foi fundamentada em três critérios: uma família que durante o regime militar exerceu significativa influência política e econômica; atuava em diversos setores da economia – indústria, serviços e sistema financeiro; e que se fez presente em várias iniciativas de apoio ao regime, desde o golpe até o financiamento da tortura.

A Cobrasma passou a ser gerida pelo filho e, posteriormente, pelo neto de Gastão Vidigal: Luís Eulálio Bueno Vidigal e Luís Eulálio Bueno Vidigal Filho. O Banco Mercantil foi presidido por Gastão, filho de Gastão, até sua morte em 2001, quando o banco foi vendido ao Bradesco.

Greve de 1968

 


São Paulo (SP) - FOTO DE ARQUIVO - Empresários que apoiaram a ditadura. Grevistas são rendidos e presos na desocupação da Cobrasma pelo Exército, Osasco 1968. Foto: Acervo/Memorial da Democracia
São Paulo (SP) - FOTO DE ARQUIVO - Empresários que apoiaram a ditadura. Grevistas são rendidos e presos na desocupação da Cobrasma pelo Exército, Osasco 1968. Foto: Acervo/Memorial da Democracia
Grevistas são rendidos e presos na desocupação da Cobrasma pelo Exército, Osasco 1968. – Acervo/Memorial da Democracia

 

A historiadora e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Cláudia Moraes de Souza encontrou registros da Cobrasma no Ministério do Trabalho que revelam condições laborais que se assemelhavam à escravidão, “uma companhia de grande porte e as condições de trabalho sempre foram deploráveis.”

“Não havia banheiros suficientes para o número de empregados, nem refeitório; o trabalhador, durante o intervalo, saía para a calçada e comia a marmita no chão. Não dispunham de material de segurança, água filtrada ou mesmo água potável durante o expediente. Portanto, questões básicas relativas à higiene e à segurança dos trabalhadores não eram atendidas”, narra a professora.

Foi nesse contexto de precariedade que a Cobrasma se tornou o epicentro de um dos maiores movimentos operários do país, em meio à ditadura militar: a greve de Osasco de 1968:

“É na greve que podemos perceber claramente, empresários convocando o Exército Brasileiro para atuar como repressão dentro da fábrica,” salienta Cláudia.

Em torno de 400 trabalhadores foram detidos durante a greve, que é considerada um dos gatilhos para o Ato Institucional 5, publicado cinco meses após a paralisação. O AI-5 fechou o Congresso Nacional, revogou mandatos de parlamentares, censurou a imprensa e proibiu a concessão de habeas corpus.

Operação Bandeirantes

A Operação Bandeirantes – Oban – foi concebida meses após o AI-5, emergindo como um dos principais instrumentos de tortura do regime. Considerada a semente dos DOI-CODIs, esse sistema de repressão foi implementado a partir de 1970 em dez capitais.

 


São Paulo (SP) - FOTO DE ARQUIVO - Empresários que apoiaram a ditadura. Vista das instalações da Operação Bandeirantes, no bairro do Paraíso, em São Paulo. Foto: Acervo/Memorial da Democracia
São Paulo (SP) - FOTO DE ARQUIVO - Empresários que apoiaram a ditadura. Vista das instalações da Operação Bandeirantes, no bairro do Paraíso, em São Paulo. Foto: Acervo/Memorial da Democracia
Vista das instalações da Operação Bandeirantes, no bairro do Paraíso, em São Paulo – Acervo/Memorial da Democracia

 

Tanto a OBAN quanto os DOI-CODIs foram suportados financeiramente por empresas nacionais e internacionais. Entre os financiadores estava o Banco Mercantil, de Gastão Eduardo de Bueno Vidigal.

O jornalista Ivan Seixas, que tinha apenas 16 anos quando foi detido e torturado junto ao pai, Joaquim Seixas, no DOI-CODI de São Paulo, descobriu que outra forma de financiar a repressão eram os prêmios oferecidos pela captura de opositores do governo:

“Eles estabeleceram uma parceria com o setor empresarial para criar uma arrecadação de prêmios. Cada captura gerava um valor. O Capitão Carlos Lamarca, quando esteve na minha casa, tinha sua cabeça avaliada em U$ 750 mil. Um ano após sua morte, seu valor subiu para U$ 1,5 milhão.”

Ele relata que também recebeu uma recompensa por sua prisão. Na época, um carcereiro disse a Ivan que recebeu U$ 300 pela detenção do jovem. Para ele, esse sistema fortaleceu os militares mais radicais e prolongou a ditadura.

A família Bueno Vidigal também esteve à frente do Grupo Permanente de Mobilização Industrial (GPMI), que tinha como objetivo estudar formas de adaptar as indústrias para a produção de materiais bélicos. A Cobrasma é acusada de ter transformado veículos da PM em blindados de guerra usados para reprimir manifestações populares.

Em troca de toda essa colaboração, os empresários recebiam isenções fiscais, contratos com o governo e empréstimos bilionários. Em seu auge, a Cobrasma alcançou receitas em torno de U$470 milhões anualmente.

“Esses benefícios eram proporcionados através dos bancos estatais. O BNDE [atualmente BNDES], por exemplo, enquanto a polícia militar, uma força paramilitar e a empresa se alocavam em um território, como uma reserva indígena, estava transferindo um imenso empréstimo para a conta da empresa com condições econômicas totalmente diferentes das que o próprio Estado aplicava normalmente”, detalha Edson Teles.

Herança escravocrata

Gastão Vidigal nasceu em 1889, em São Paulo, descendente de uma família influente do Nordeste brasileiro e casado com Maria Amélia Pontes Bueno, herdeira de uma renomada família paulistana, os Buenos.


São Paulo (SP) - FOTO DE ARQUIVO - Empresários que apoiaram a ditadura. Anúncio de interesse de compra de escravizado no Jornal o Liberal (SE), em 1853, publicado por Antônio Pedro Vidigal, bisavô de Gastão Eduardo de Bueno Vidigal e Luís Eulálio de Bueno Vidigal. Foto: Acervo/Memorial da Democracia
São Paulo (SP) - FOTO DE ARQUIVO - Empresários que apoiaram a ditadura. Anúncio de interesse de compra de escravizado no Jornal o Liberal (SE), em 1853, publicado por Antônio Pedro Vidigal, bisavô de Gastão Eduardo de Bueno Vidigal e Luís Eulálio de Bueno Vidigal. Foto: Acervo/Memorial da Democracia
Reprodução Arquivo Nacional

Na busca pelos antepassados da família Vidigal, a equipe do Perdas e Danos localizou em jornais do século XIX de Sergipe informações que confirmam a prática escravista. Em 1853, em um anúncio no jornal União Liberal, Antônio Pedro Vidigal, avô de Gastão Vidigal, expressa seu interesse em adquirir um escravo.

Em 1882, o jornal O Libertador, também na Sergipe, relatou que uma mulher enfrentava dificuldades para libertar a própria filha e o neto, que tecnicamente já havia nascido livre. No momento da transação, os avaliadores do tribunal para definir o preço da mulher escravizada inflacionaram o valor em 33%, alegando que seria uma transação que garantiria a alforria à filha e ao neto da compradora. Um dos avaliadores encarregados do superfaturamento era um Vidigal.

A linhagem materna da família, os Bueno, também está marcada pela exploração do trabalho escravo.

A consorte de Gastão Vidigal, Maria Amélia Bueno, é descendente de Amador Bueno da Ribeira, capitão-mor da Capitania de São Vicente no século XVII. No final do século XIX, o avô de Maria Amélia, Augusto Xavier Bueno de Andrade, fez um empréstimo no Banco do Brasil e, como garantia, ofereceu uma fazenda de café em Campinas, incluindo 75 pessoas escravizadas, conforme a pesquisa Escravos Hipotecados.

Atualmente, o nome Gastão Vidigal é associado a centenas de logradouros pelo país: avenidas, ruas, travessas, becos, praças, um aeroporto e até uma cidade no interior paulista.

De acordo com José Marciano Monteiro, professor da Universidade Federal de Campina Grande (PB), essas denominações feitas pelas elites não são meramente nomes de ruas, mas locais de memória que perpetuam as desigualdades.

“As disputas políticas não ocorrem apenas entre os vivos. Elas também ocorrem entre os mortos, quando se disputam as memórias. Isso alimenta o capital simbólico. Imagine o que significa chegar a um lugar e dizer que esta avenida é uma homenagem ao meu bisavô. Isso ativa toda uma rede de contatos, prestígio e status, representando algo totalmente diferente de quem vai competir e não possui referências”, explica Marciano Monteiro.

Ele ressalta que foram exatamente essas referências que tentaram ser obliteradas no contexto escravista: “Em relação às pessoas que foram historicamente escravizadas, o que mais tentaram aniquilar foi a memória de seus antepassados. Quando você extingue a memória, não há mais referências.”

 

Outro lado

A Cobrasma encerrou suas atividades em 1998. Gastão Eduardo de Bueno Vidigal, do Banco Mercantil, faleceu em 2001 aos 82 anos, um dos homens mais abastados do país. A família voltou a ser notícia em 2019, quando um outro banco do clã, o Banco Paulista, fundado em 1990 por Álvaro Augusto Vidigal, sobrinho de Gastão Vidigal, passou a ser investigado pela Operação Lava Jato, acusado de lavar R$ 48 milhões para a Odebrecht.

A redação do Perdas e Danos tentou contato com a assessoria de comunicação do Banco Paulista, questionando se algum membro da família estaria disposto a discutir a origem escravocrata da riqueza do clã e se, após 60 anos, teria interesse em reavaliar o apoio dado por membros da família à ditadura. Também foram feitas perguntas sobre as acusações da Operação Lava Jato. A assessoria de imprensa do banco apenas esclareceu que o presidente do Banco Paulista, Guti Vidigal, não é herdeiro direto do financiador da OBAN e não tem ligação com a Cobrasma.

A reportagem também procurou a direção da Cobrasma para fazer as mesmas indagações a Luís Eulálio Vidigal, bem como questionar sobre a ocupação da fábrica pelo Exército em 1968, a expansão da empresa durante a ditadura e o fechamento das operações a partir da abertura democrática.

Não houve resposta a nenhuma das questões. 

Fonte: Agência Brasil

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TAGS:Ditadura MilitarFamílias EscravistasPerdas e Danos
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