A bióloga Maria Teresa Fernandez Piedade, vinculada ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), é a ganhadora deste ano do Prêmio Almirante Álvaro Alberto, a maior honraria da ciência em solo brasileiro.
O comunicado foi revelado nesta sexta-feira (24) pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), que disponibiliza a premiação em conjunto com a Marinha do Brasil.
Estabelecido em 1981, o Prêmio Almirante Álvaro Alberto é concedido anualmente ao cientista que se destacou por suas contribuições em pesquisa científica ou tecnológica de grande relevância.
A cerimônia de entrega ocorrerá no dia 7 de maio, no Rio de Janeiro, onde Maria Teresa receberá um diploma, uma medalha e um prêmio em dinheiro no valor de R$ 200 mil.
Pesquisa
Há quase 50 anos, Maria Teresa se dedica a estudos na Amazônia. Atualmente, ela é professora nos Programas de Pós-Graduação em Ecologia e Botânica do Inpa, e coordena o grupo de pesquisa Ecologia, monitoramento e uso sustentável de áreas úmidas (Maua).
Segundo a bióloga, o interesse em realizar pesquisas na região amazônica surgiu logo que iniciaram seus estudos em Biologia, a muitos quilômetros de distância, na Universidade Federal de São Carlos, em São Paulo.
“Naqueles tempos, era basicamente um sonho”, rememora a pesquisadora.
Mas esse sonho começou a se concretizar a partir de uma especialização realizada no Inpa.
“Ao começar, me propuseram uma oportunidade de trabalho em ambientes de terra firme. E eu não estava muito contente com isso, pois sempre tive apresso pela água. Assim, fiz uma primeira viagem para o Rio Negro. A partir desse instante, decidi que meu foco seria nos rios”, relata.
Maria Teresa também obteve os títulos de mestre e doutora no Inpa, e começou a atuar como pesquisadora efetiva em 1988. Durante sua trajetória, lecionou como professora convidada em diversas universidades e instituições de pesquisa.
Além disso, a pesquisadora participou de várias iniciativas de colaboração científica internacional em benefício da região, como no Conselho Científico Internacional do Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera da Amazônia e na parceria Brasil–Alemanha Inpa/MCTI-Sociedade Max-Planck.
No cenário nacional, ela já integrou o Conselho Nacional de Zonas Úmidas do Ministério do Meio Ambiente e o Diagnóstico Brasileiro de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos.
Atualmente, seu principal foco de pesquisa são os impactos das variações nos níveis de água durante os períodos de cheia e vazante dos rios.
“A água oscila ao longo do ano e transforma os ecossistemas de uma maneira singular, gerando adaptações em organismos e influenciando também todas as cadeias alimentares e os estoques de carbono na região de uma maneira singular”, esclarece.
Além disso, investiga as transformações provocadas por ações humanas, como a construção de barragens.
“O que temos constatado é que, após 30 anos da Hidrelétrica de Balbina, em mais de 125 quilômetros de áreas, as florestas têm morrido de forma progressiva, devido à irregularidade no fornecimento de água, já que este passa a atender à demanda energética”, comenta, referindo-se à usina construída no Rio Uatumã, no Amazonas.
A pesquisadora enfatiza a relevância dos cursos d’água da região para o país e alerta sobre uma corrida “contra o tempo” e contra ações humanas “destrutivas”, que estão intensificando a degradação desses ambientes e contribuindo para as mudanças climáticas.
“Apenas os grandes rios como Amazonas, Solimões e Rio Negro, que compõem o que chamamos um conjunto de várzeas e igapós, abrangem 750 mil km quadrados. Isso é quase três vezes o tamanho do estado de São Paulo. Os pequenos cursos d’água, conhecidos aqui como igarapés, totalizam mais de 1 milhão de km quadrados”, explica Maria Teresa.
“A sociedade brasileira, de maneira geral, depende de todo o ciclo hídrico da região amazônica. Os corpos d’água e a floresta formam um sistema que bombeia água para os ecossistemas terrestres, e essa água se transforma em rios voadores que seguem para o Sul e Sudeste”, declara.
“As investigações se revelam fundamentais para que possamos tanto designar áreas de conservação quanto compreender a vulnerabilidade e a necessidade de proteger esses sistemas da maneira que eles normalmente operam”, afirma.
Fonte: Agência Brasil
