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Direitos do Cidadão

Entidades acusam Brasil de omissão nos Crimes de Maio na ONU

Gabriel Aires
Atualizado em: 8 de maio de 2026 9:57 am
Gabriel Aires
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A organização Conectas Direitos Humanos, juntamente com o Movimento Independente Mães de Maio, apresentou nesta segunda-feira (4) um apelo urgente à Organização das Nações Unidas (ONU), onde denuncia a inação do governo brasileiro em relação aos Crimes de Maio, que se configuram como um dos episódios mais intensos de violência estatal durante a vigência do Estado Democrático de Direito no Brasil.

Sumário
Julgamento STJResponsabilidade internacional

As instituições exigem que o governo assegure os direitos à memória, verdade, reparação e a não repetição de atos violentos como estes, que resultaram em pelo menos 564 fatalidades entre os dias 12 e 21 de maio de 2006, além de 110 pessoas feridas e no mínimo quatro desaparecidos, sendo a grande maioria jovens, negros, oriundos de comunidades vulneráveis.

“Nenhuma das execuções foi devidamente esclarecida, e nenhum servidor público foi responsabilizado, além de que as famílias das vítimas não receberam a reparação devida”, afirmam as entidades na carta enviada.

Além disso, destacam que a taxa de letalidade policial no Brasil, especialmente em São Paulo e na Baixada Santista, onde a maior parte das mortes ocorreu, continua em patamares alarmantes.

O Movimento Mães de Maio surgiu em um cenário de impunidade e falta de reparo. “Em um contexto de luto e da inação do Estado, várias dessas mulheres adoeceram e alguns faleceram, enquanto muitas outras vivem em condições de extrema vulnerabilidade, dependendo fundamentalmente da solidariedade entre si”, lamentam as organizações.

 


São Paulo - O movimento Mães de Maio inaugura memorial no Centro Cultural Jabaquara para lembrar o genocídio de quilombolas no local, em maio de 2006  (Rovena Rosa/Agência Brasil)
São Paulo - O movimento Mães de Maio inaugura memorial no Centro Cultural Jabaquara para lembrar o genocídio de quilombolas no local, em maio de 2006  (Rovena Rosa/Agência Brasil)
São Paulo – O movimento Mães de Maio inaugura memorial no Centro Cultural Jabaquara para lembrar o genocídio de quilombolas no local, em maio de 2006. Foto-arquivo; Rovena Rosa/Agência Brasil – Rovena Rosa/Agência Brasil

As associações solicitam ações da ONU para que o governo brasileiro promova medidas como o fortalecimento do Controle Externo da Atividade Policial e a implementação de estratégias para a redução da letalidade policial; políticas públicas de assistência integral às vítimas da violência estatal e a imediata e apropriada reparação às vítimas e seus familiares.

Além disso, pedem que o Brasil reconheça os assassinatos, os desaparecimentos forçados, as fraudes processuais e a inação estadual a respeito dos Crimes de Maio de 2006 como graves violações dos direitos humanos e que o Superior Tribunal de Justiça (STJ) aponte a imprescritibilidade do caso.

>>Comissão da Verdade sobre crimes na democracia é criada em São Paulo

Julgamento STJ

O documento menciona a espera pelo julgamento que teve início em setembro do ano anterior no Superior Tribunal de Justiça (STJ), onde será decidido se os Crimes de Maio devem ser considerados graves violações dos direitos humanos e, portanto, imprescritíveis para fins de reparação.

A eventual negação dessa tese, conforme o texto, significará não apenas a perpetuação da violência estatal e o não reparo às vítimas e seus familiares, mas também dará margem à inação estatal no que diz respeito à investigação de suas próprias ações. Atualmente, o julgamento encontra-se suspenso.

“Esse contexto configura uma ameaça à democracia, à proteção dos direitos fundamentais e, especialmente, ao direito à vida, justiça e reparação. A contínua inação do Estado contribui para a persistência da letalidade estatal no Brasil e evidencia a precariedade – quando não a total falta – de controle institucional sobre as ações das forças de segurança”, avaliaram as instituições em relação ao risco da falta de reconhecimento da situação pelo STJ.

As entidades enfatizam que o STJ deve ser incentivado a seguir rigorosamente as normas interamericanas e globais relacionadas a graves violações dos direitos humanos, que são vinculativas para o Brasil, e portanto, cujas obrigações devem ser aceitas pelo país. “Restringir esses direitos aos períodos de ditadura, como se cogitou no julgamento do STJ, é ignorar a continuidade da violência estrutural e perpetuar a exclusão no acesso à justiça.”

Responsabilidade internacional

 


Débora Maria, fundadora do Mães do Maio, faz homenagem ao filho (Carlos Ghione/Mães de Maio)
Débora Maria, fundadora do Mães do Maio, faz homenagem ao filho (Carlos Ghione/Mães de Maio)
Débora Maria, fundadora do Mães do Maio, faz homenagem ao filho (Carlos Ghione/Mães de Maio) – Carlos Ghione/Mães de Maio

“É imprescindível a realização do controle de convencionalidade e a adequação do Judiciário brasileiro à legislação e à jurisprudência do Sistema e da Corte Interamericana de Direitos Humanos, que reconhecem a imprescritibilidade das gravíssimas violações dos direitos humanos. O Estado Brasileiro não pode utilizar normas internas ou formalismos processuais para escapar de sua responsabilidade internacional e da preservação dos direitos humanos”, afirma o texto encaminhado à ONU.

De acordo com as organizações, tais crimes não se inserem em “um contexto de normalidade institucional, mas em um cenário de execuções sumárias, desaparecimentos forçados, investigações apenas formais e arquivamentos em massa, com indícios de manipulação de provas e intimidação de testemunhas”.

A decisão, afirmam Conectas e Mães de Maio, poderá ser um marco no reconhecimento institucional da violência estatal direcionada, de forma desproporcional, a jovens negros e habitantes de comunidades periféricas, ajudando na integração de padrões internacionais de direitos humanos na jurisprudência nacional. Caso não haja o devido reconhecimento, a decisão implicaria em um retrocesso grave na responsabilização do Estado e de seus agentes.

Fonte: Agência Brasil

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TAGS:Mães de MaioONUSTJViolência Policial
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