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Direitos do Cidadão

Empreendedoras transformam suas vidas na bioeconomia do Pará

Gabriel Aires
Atualizado em: 22 de abril de 2026 7:10 pm
Gabriel Aires
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No município de Parauapebas, localizado no sudeste do Pará, o talento das mulheres tem promovido mudanças significativas. Através da produção de mel, cerâmica e biojoias elaboradas com sementes, elas demonstram que é viável gerir empreendimentos que combinam a realização pessoal com a valorização da cultura local, a proteção da floresta e a geração de renda.

Sumário
EmpreendedorasRiquezas da AmazôniaMulheres de barroBioeconomia

Essas mulheres residem nas proximidades da Floresta Nacional de Carajás e da maior mina de ferro a céu aberto globalmente. Nesse cenário, elas coletam insumos para suas produções e conquistam sua autonomia financeira, além de desempenharem um papel central em suas comunidades.

Um exemplo dessas iniciativas motivadas por mulheres é a Associação Filhas do Mel da Amazônia (AFMA), que existe há aproximadamente uma década. A associação atua tanto na produção de mel da apicultura, com as abelhas comuns, quanto da meliponicultura, que envolve a criação de abelhas sem ferrão resgatadas de áreas desmatadas.

A promoção da apicultura não só favorece a conservação ambiental, mas também disponibiliza opções de geração de renda para essas mulheres.

“Antes, a gente só sabia cozinhar e cuidar da casa”, relatou Ana Alice de Queiroz, uma das fundadoras da associação. “Porém, quando nos apresentaram a ideia de que poderíamos fazer outras atividades fora do lar, nós abraçamos essa oportunidade. Isso nos transformou. Algumas até foram estudar”.

 


Paraupebas - Pará 19/04/2026 - Ana Alice de Queiroz, uma das fundadoras da Associação Filhas do Mel da Amazônia (AFMA). Foto: Washington Alves/ Ligth Press
Paraupebas - Pará 19/04/2026 - Ana Alice de Queiroz, uma das fundadoras da Associação Filhas do Mel da Amazônia (AFMA). Foto: Washington Alves/ Ligth Press
Ana Alice de Queiroz, uma das fundadoras da Associação Filhas do Mel da Amazônia (AFMA). Foto: Washington Alves/ Light Press/Divulgação

A fundadora menciona que retornou aos estudos aos 51 anos, e que muitas dessas mulheres não sabiam ler nem escrever.

“Saímos do ambiente da cozinha, da rotina que se mantinha igual, e hoje estamos empreendendo, e isso é extremamente gratificante para nós”, afirmou.

Agora, afirma Ana Alice, elas não têm mais tempo disponível para as tarefas domésticas. “Mudou tudo. Não conseguimos mais dedicar tanto tempo a cozinhar ou arrumar a casa”.

A AFMA atualmente agrupa 23 famílias, englobando tanto mulheres quanto homens. Assim como nas colmeias, as mulheres se encarregam das principais atividades da organização, como gerenciar as finanças, envasar, rotular e definir o preço dos produtos.

“Os homens vão ao apiário, mas a administração fica a cargo das mulheres”, disse Ana Alice, que já ocupou a presidência da associação. “Nossa função é organizar a equipe e garantir que a produção seja a melhor possível, assim como as abelhas fazem”, enfatizou.

 


Paraupebas - Pará - 19/04/2026 - Criação de abelhas da Associação Filhas do Mel da Amazônia (AFMA). Foto: Washington Alves/ Ligth Press
Paraupebas - Pará -  19/04/2026 - Criação de abelhas da Associação Filhas do Mel da Amazônia (AFMA). Foto: Washington Alves/ Ligth Press
Criação de abelhas da Associação Filhas do Mel da Amazônia (AFMA). Foto: Washington Alves/ Light Press/Divulgação

Empreendedoras

No ano passado, mais de 2 milhões de pequenos empreendimentos abertos no Brasil foram geridos por mulheres. Essas informações são do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e são baseadas em dados da Receita Federal.

Conforme esse estudo, quatro em cada dez pequenos setores estabelecidos no país em 2025 foram iniciativa de mulheres, superando em mais de 320 mil o total do ano anterior.

Em entrevista à Agência Brasil, Renata Batista, gerente da Unidade de Sustentabilidade e Inovação do Sebrae no Pará, mencionou que a quantidade de mulheres empresárias aumentou de 8,2 milhões em 2015 para 10,4 milhões em 2025 ─ um avanço de 27% ao longo de uma década, superando o crescimento observado entre os homens.

“Esse fenômeno é resultado de uma série de fatores: aumento da escolarização feminina, a busca por autonomia financeira, a necessidade de gerar renda e a ampliação do acesso à formalização, especialmente através do MEI [microempreendedor individual]. Simultaneamente, o empreendedorismo tem se tornado um caminho para as mulheres transformarem seu conhecimento, suas habilidades e suas conexões com o território e seus negócios”, complementou.

Apesar desse crescimento, as mulheres ainda não conseguem representar nem metade dos novos pequenos empreendimentos criados no país. No estado do Pará, por exemplo, somente 37,6% das pequenas empresas inauguradas em 2025 eram geridas por mulheres.

Mesmo diante das adversidades, essas mulheres persistem na busca por espaço nesse mercado, contando com a ajuda do governo e de empresas privadas.

Patricia Daros, diretora de soluções baseadas na natureza da mineradora Vale, afirma que os negócios geridos por mulheres vão além da simples geração de renda, levantando questões sobre empoderamento feminino que vêm sendo mais reconhecidas. Na mineradora, 30% dos 50 projetos de bioeconomia apoiados recentemente são liderados por mulheres.

“Desde o início desse trabalho [de apoio], notamos uma alteração no perfil dos lideres dos negócios, e as mulheres têm emergido com mais frequência, especialmente em empreendimentos vinculados à bioeconomia”, ressaltou.

Riquezas da Amazônia

Fundado em 10 de maio de 1988, após plebiscito que separou o município de Marabá, Parauapebas tem um nome de origem tupi que se traduz como “rio de águas rasas”. Sua composição populacional resulta de um intenso fluxo imigratório, impulsionado pela descoberta e exploração mineral na Serra dos Carajás desde a década de 1960.

Atualmente, a mineração representa uma fatia significativa da economia da cidade, com ênfase no minério de ferro, além de cobre, manganês, níquel e ouro.

Apesar da predominância da mineração, projetos de bioeconomia têm surgido e se expandido na cidade, como aquele que transforma mais de 100 tipos de sementes em biojoias que combinam arte e sustentabilidade.

Luciene Padilha, secretária da Associação Preciosidades da Amazônia e futura líder da Cooperativa de Trabalho Artesanal da Amazônia, mencionou que a associação não só impacta financeiramente, mas também melhora aspectos sociais, econômicos e emocionais das 12 mulheres envolvidas.

“No início, éramos mulheres em situação vulnerável, que não saíam de casa por medo. Elas costumavam ouvir de seus provedores: ‘você não pode, você não sabe’. Hoje, elas se posicionam, sentem-se fortalecidas e estão envolvidas no empreendedorismo feminino”, celebrou.

A Associação Preciosidades da Amazônia recebe apoio da prefeitura, da Vale, do Sebrae e da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra). Sandra Brasil, tesoureira do grupo, explicou que elas extraem as sementes da natureza e também geram sua renda.

“Trabalhamos com materiais vegetais e tudo o que a natureza nos permite utilizar. Temos um verdadeiro tesouro nas mãos. Tesouros não são apenas ouro e prata. Aprendemos a reconhecer a natureza como o verdadeiro patrimônio da humanidade”, enfatizou.

 


Paraupebas - Pará 19/04/2026 - Biojoias produzidas pela Associação Preciosidades da Amazônia. Foto: Washington Alves/ Ligth Press
Paraupebas - Pará 19/04/2026 -  Biojoias produzidas pela Associação Preciosidades da Amazônia. Foto: Washington Alves/ Ligth Press
Biojoias produzidas pela Associação Preciosidades da Amazônia. Foto: Washington Alves/ Light Press/Divulgação

Após aprenderem a criar suas peças, essas artesãs agora atuam como mentoras para novas gerações de empreendedoras. “Após sairmos da sala de aula, já estamos equipadas com o conhecimento necessário para ensinar [outras pessoas]. Hoje, todas nós participamos das aulas e já oferecemos até oficinas”, ressaltou.

As biojoias fabricadas por essas artesãs têm fortalecido a economia local e auxiliado no sustento de diversas famílias. Além de contar histórias, essas peças têm reforçado os vínculos e contribuído para a preservação da Amazônia.

Segundo Renata Batista, iniciativas como essas são cruciais, pois demonstram de forma prática que é viável gerar renda enquanto a floresta permanece intacta, atribuindo valor à biodiversidade, ao conhecimento local e à cultura brasileira.

“No que tange às biojoias, há ainda um aspecto muito forte de identidade e diferenciação. O Sebrae aponta que esse setor tem conquistado espaço pois une materiais naturais, processos artesanais e a valorização de histórias, crenças e tradições do país”, apontou.

Mulheres de barro

O grupo Mulheres de Barro, formado por ceramistas de Parauapebas, surgiu durante a implementação do projeto Salobo, que é o maior projeto de exploração de cobre no país, liderado pela Vale no interior da Floresta Nacional do Tapirapé-Aquiri (Flonata), em Marabá.

No decurso do projeto Salobo, foram descobertos artefatos arqueológicos na floresta datando de 6 mil anos. A formação do grupo se deu a partir das atividades de prospecção e salvamento arqueológico desses artefatos, realizadas pelo Museu Paraense Emílio Goeldi e pela Vale. Durante oficinas de educação patrimonial, essas mulheres aprenderam sobre a história local e técnicas de cerâmica, permitindo a criação de peças inspiradas nesse passado.

Nessas oficinas, elas descobriram que a cerâmica produzida pelos povos que residiam nas proximidades do Rio Itacaiúnas e seus afluentes era utilizada em rituais ou como utensílios do dia a dia. Desde então, essas artesãs passaram a criar novas narrativas e moldar peças contemporâneas com referências arqueológicas.

As formas e os padrões dessas novas criações são inspirados nos vestígios recuperados nesses sítios arqueológicos na Serra dos Carajás. A base das tintas utilizada vem de pigmentos extraídos da região, como óxido de ferro, manganês e argilas coloridas.

 


Paraupebas - Pará 19/04/2026 - Cerâmicas produzidas pelo grupo Mulheres de Barro. Foto: Washington Alves/ Ligth Press
Paraupebas - Pará 19/04/2026 - Cerâmicas produzidas pelo grupo Mulheres de Barro. Foto: Washington Alves/ Ligth Press
Cerâmicas produzidas pelo grupo Mulheres de Barro. Foto: Washington Alves/ Light Press/Divulgação

A presidente do Centro Mulheres de Barro, Sandra dos Santos Silva, relatou que, após 2002, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) incluiu a educação patrimonial no processo de licenciamento das pesquisas arqueológicas, obrigando a informar a comunidade local sobre os resultados.

“Foi aí que percebi que o universo cooperou a nosso favor, porque estávamos em busca disso: participei dessa formação por seis anos. Não sabíamos nada sobre cerâmica, começamos do zero”, contou ela, que lidera uma cooperativa com 18 mulheres e quatro homens, que não apenas fabricam peças, mas também oferecem cursos e oficinas.

Atualmente, essas mulheres ajudam a preservar a herança ancestral da região e a floresta onde esses vestígios de cerâmicas foram encontrados. Para isso, elas abandonaram a coleta de argila da natureza, um processo prejudicial, em favor de usar restos de construções na confecção de seus produtos.

“Com a proposta de sustentabilidade, notamos que sempre há sobras [de argila] nas construções na cidade. Uma grande quantidade de argila era descartada. Utilizamos esse desperdício das obras, realizando o processo de peneiramento da argila: diluímos, peneiramos, misturamos em uma betoneira, diluímos amplamente, deixamos para decantar e, então, retiramos a água até obter a consistência ideal para moldagem”, explicou Sandra.

Através dessas atividades, o Centro Mulheres de Barro está transformando a vida de diversas mulheres em Parauapebas. E esse saber ancestral, que foi transmitido às fundadoras do Mulheres de Barro, agora começa também a ser compartilhado com as novas gerações.

“Nunca havia trabalhado com barro. Mas agora me sinto extremamente feliz”, revelou Maria do Socorro Assunção Teixeira, 62 anos, uma das fundadoras do grupo. “Hoje, me vejo como uma multiplicadora de conhecimento. Nós compartilhamos [esse aprendizado] com outras pessoas”, destacou.

 


Paraupebas - Pará19/04/2026 - Maria do Socorro Assunção Teixeira, fundadora do Centro Mulheres de Barro. Foto: Washington Alves/ Ligth Press
Paraupebas - Pará19/04/2026 - Maria do Socorro Assunção Teixeira, fundadora do Centro Mulheres de Barro. Foto: Washington Alves/ Ligth Press
Maria do Socorro Assunção Teixeira, fundadora do Centro Mulheres de Barro. Foto: Washington Alves/ Light Press/Divulgação

Bioeconomia

Essas pequenas iniciativas lideradas por mulheres no Pará exemplificam projetos de bioeconomia, um modelo econômico que se baseia na utilização sustentável dos recursos naturais.

“Quando uma mulher dirige um negócio na região amazônica, ela não está somente comercializando um produto, mas também contribuindo para a construção de uma economia mais conectada ao território, com maior identidade, valor agregado e capacidade de redistribuir a renda em nível local”, ressaltou a gerente do Sebrae no Pará.

“Empreendimentos como biojoias, artesanato ético, cosméticos naturais e outros produtos da sociobiodiversidade demonstram que a Amazônia também pode ser um espaço de inovação econômica fundamentada nos ativos da floresta, e não apenas em atividades de baixo valor local”, completou.

Além de serem sustentáveis, esses projetos fortalecem as tradições locais e as cadeias produtivas. Na Amazônia, os resultados positivos dessa abordagem sustentável de negócios têm atraído, cada vez mais, investimentos tanto de governos quanto da iniciativa privada.

Todos os projetos mencionados nesta matéria, por exemplo, receberam suporte do Fundo Vale, uma entidade sem fins lucrativos mantida pela mineradora, que visa promover negócios de impacto que valorizem a floresta em pé e o uso sustentável da terra.

“Quando a Vale lançou o Fundo Vale, nossa abordagem foi pensar na economia da floresta de maneira mais justa e voltada para o desenvolvimento territorial. Já investimos mais de R$ 430 milhões em mais de 146 iniciativas na região”, salientou Patricia Daros.

Anualmente, a bioeconomia da sociobiodiversidade movimenta R$ 13,5 bilhões no estado do Pará, impulsionada por cadeias produtivas ligadas à floresta, aos rios e à agricultura familiar. Contudo, os negócios relacionados à biodiversidade, especialmente aqueles comandados por mulheres, ainda enfrentam diversas dificuldades para se manter.

“Existem desafios comuns a todo empreendedor, como acesso a mercados, gestão financeira, capital de giro, planejamento e competitividade. Entretanto, no caso das mulheres, há obstáculos adicionais. O Sebrae observa que, embora elas abram negócios em números semelhantes aos homens, mesmo sendo em média mais escolarizadas, suas empresas tendem a obter menos lucro”, explicou Renata Batista.

Além disso, ela apontou que as mulheres frequentemente têm mais dificuldades para obter crédito e enfrentam sobrecargas no trabalho, pois costumam acumular atividades relacionadas às responsabilidades domésticas e ao cuidado de pessoas, o que impacta seu tempo disponível para capacitação, gestão e o crescimento do empreendimento.

Por essa razão, o Sebrae enfatiza que, para que um negócio vinculado à sociobiodiversidade prospere, não só a produção precisa ser eficiente, mas também é essencial estruturar adequadamente a cadeia de produção, a comercialização do produto e o financiamento do projeto ─ que deve estar alinhado à realidade do campo.

Para fortalecer esses empreendimentos de bioeconomia, o governo federal lançou recentemente o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio). Um dos focos desse plano é voltado para iniciativas relacionadas à sociobioeconomia e aos ativos ambientais.

*A repórter viajou a convite da Vale.

Fonte: Agência Brasil

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TAGS:AmazôniaBioeconomiaEmpreendedorismoParáSebraeVale
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