Agência Brasil: A conferência terá um formato aberto, com ampla participação da sociedade. Como os debates podem contribuir para o desenvolvimento do Mapa do Caminho para a Redução dos Combustíveis Fósseis?
Ana Toni: Creio que a decisão de avançar para longe dos combustíveis fósseis foi feita na COP28, em Dubai. Nosso Mapa do Caminho e esta conferência vão aprofundar o debate.
Com base no que já foi acordado, devemos pensar em como implementar. Quais são os próximos passos? Por onde devemos começar? Qual é a sequência de ações? Assim, ouvir da sociedade civil, dos povos indígenas e dos governos presentes suas sugestões sobre os próximos passos é fundamental.
Como [o presidente da COP30] André do Lago tem destacado, para decidir, é necessário alcançar um consenso, mas, para implementar, esse consenso não é essencial. Até porque para alguns países, avançar na eletrificação fará mais sentido. Para outros, o combustível sustentável será mais relevante.
Portanto, a proposta desses debates é demonstrar que existem múltiplas formas de implementar o que já foi acordado na COP28.
Agência Brasil: Como a presidência brasileira da COP interpreta o interesse de mais de 60 países em participar da conferência? Esses países têm influência nesse processo de transição para a redução dos combustíveis fósseis?
Ana Toni: A cada quatro pessoas no planeta, três habitam nações que importam combustíveis fósseis. Assim, esses 60 países que estarão presentes são bastante relevantes, pois não importa se são países produtores ou consumidores. A diminuição dessa dependência global dos combustíveis fósseis depende de ambas as partes.
Cito a Etiópia como exemplo, um país importador de combustível fóssil que decidiu parar de importar carros com motores a combustão. Isso é extremamente relevante.
Precisamos avaliar nossa dependência econômica, que não é apenas energética.
No Mapa do Caminho, solicitamos contribuições formais de países e não-países. Recebemos mais de 250 contribuições, evidenciando uma grande demanda para discutir os próximos passos. O evento na Colômbia, em Santa Marta, será um dos fóruns importantes para atender a essa necessidade.
É um processo de amadurecimento sobre o que podemos fazer de maneira eficaz, pois a decisão já foi estabelecida.
Agência Brasil: O prazo para as contribuições ao Mapa do Caminho encerrou no dia 10 de abril. Quais são os desafios enfrentados na elaboração deste documento orientador para o mundo?
Ana Toni: Sem dúvida, é uma quantidade significativa de informações. Consolidar todas essas informações e priorizar as recomendações que serão feitas certamente será a parte mais desafiadora, pois varia de acordo com as condições de cada país.
Infelizmente, a guerra no Irã, provocada pelos Estados Unidos e Israel, reforça que a transição para longe da dependência de combustíveis fósseis é absolutamente crucial. Isso não é apenas uma questão climática, mas também econômica, energética e de segurança.
Não esperávamos que isso ocorresse, mas vejo que nosso Mapa do Caminho se tornou uma plataforma para discutir e revisar a segurança energética, econômica e essa dependência global que temos em relação aos combustíveis fósseis.
Sabemos que não se pode acabar com essa dependência rapidamente, mas precisamos planejar, pois, se não o fizermos, teremos consequências como as que estamos enfrentando atualmente, com um forte impacto global.
Agência Brasil: Existe uma estrutura preliminar para o Mapa do Caminho? Os temas serão dispostos em capítulos? Que abordagens serão adotadas?
Ana Toni: Sim, já temos uma noção do que queremos, claro, mas isso dependerá de ouvirmos todos para definir a estrutura final.
Então, partindo da estrutura em capítulos, o primeiro abordará os riscos da não transição. Discutirá todos os riscos possíveis, sejam climáticos, naturais, políticos ou de segurança, e tudo o que nos aflige.
O segundo capítulo enfocará a transição sob a ótica dos produtores de combustíveis fósseis, abrangendo tanto países quanto empresas. Este capítulo também incluirá a perspectiva dos consumidores, de diversos setores, como energia elétrica, transporte, indústria. O que essa dependência implica e como podem aproveitar as oportunidades para acelerar o processo de transição.
A terceira parte abordará a questão da dependência econômica. Queremos evidenciar que as circunstâncias de cada país em relação a essa dependência econômica são muito diversas, e também enfatizar para governos subnacionais, como prefeituras, que o problema é econômico, além do energético.
No último capítulo, colocaremos nossas recomendações para o mundo, que vão além da COP31.
Agência Brasil: Com o que já foi discutido até o momento, é viável pensar numa transição justa e planejada, com uma visão global aplicada localmente?
Ana Toni: A transição já foi iniciada e está em andamento. Porém, o que se observa no mundo é uma dualidade: um lado acelerando a adoção de renováveis, armazenamento e eficiência, enquanto o outro continua a acelerar a utilização de combustíveis fósseis.
O que desejamos é frear o uso de combustíveis fósseis, e isso já começou.
Não tenho dúvidas de que essa mudança deve ser justa, pois, caso contrário, não ocorrerá. Acredito que temos uma oportunidade ímpar de continuar debatendo esse assunto. Haverá a COP31, COP32, além do segundo Balanço Global, que nos permitirá amadurecer o que está tendo sucesso. Precisamos nos preparar para apresentar um novo Balanço Global com muito mais capacidade de discutir o que deve e pode ser acelerado nos próximos passos.
Portanto, estou otimista e, como mencionei, o mais essencial é que continuemos a dialogar politicamente sobre esse tema, a fim de tomarmos as decisões adequadas.
Fonte: Agência Brasil