A Orquestra Pizindim dedicou-se a um legado ainda pouco celebrado de Pixinguinha: sua atuação como arranjador desde o final dos anos 1920 até a década de 1950.
“Acredito que somente aqueles que fazem parte do universo do choro compreendem verdadeiramente quem é Pixinguinha e qual é a sua relevância. A maioria das pessoas apenas o reconhece como o autor de ‘Carinhoso’, afirma Bruno Patrício, saxofonista, diretor musical da Orquestra Pizindim e produtor executivo do álbum em produção.
Central do Brasil
Três composições já gravadas no álbum da Orquestra Pizindim destacam os arranjos de Pixinguinha.
Entre elas, a valsa “Só tu não sentes” e a marchinha “Tenho um desejo”, foram criadas por um pianista carioca conhecido como J. F. Fonseca Costa ou simplesmente “Costinha”.
Contemporâneo de Ernesto Nazareth (1863–1934), Costinha atuava na Estrada de Ferro Central do Brasil, que naquela época conectava Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, empregando muitos músicos de choro – como o violonista Satyro Bilhar (1848-1926), e os compositores Cândido das Neves (1899-1934) e Juca Kalut (1857-1822).
As partituras dos arranjos de Pixinguinha para as duas canções datam de 1957, de acordo com o acervo preservado e organizado pelo Instituto Moreira Salles, no Rio. “Trata-se de dois arranjos inéditos para músicas, que são praticamente novas”, destaca Bruno, referindo-se a gravações já esquecidas.
Ainda, outra composição que recebeu o toque de arranjador de Pixinguinha e foi redescoberta pela Orquestra Pizindim é a polca “Alfredinho no Choro“. Embora tenha sido gravada originalmente em 1910, em 1949 recebeu um novo arranjo de Pixinguinha. Esta canção é de Alfredinho Flautim, o nome artístico de Alfredo José Rodrigues (1894-1958).
Influência do jazz
O repertório original de Pixinguinha está presente em duas músicas do álbum. Uma delas é o maxixe “Dando topada”, que integrou a trilha sonora do primeiro longa-metragem de ficção produzido no Pará, “Um dia qualquer“, dirigido por Líbero Luxardo em 1965.
Esse título, provavelmente, está relacionado às interrupções instantâneas na sua execução, explica Bruno Patrício. “Há sempre uma topada ali para todos os instrumentos”, acrescenta.
A outra composição de Pixinguinha incluída no álbum e também na apresentação da Orquestra Pizindim é o choro “Carinhoso”. Essa música é uma das mais regravadas no Brasil, porém antes de alcançar o sucesso, passou por um caminho tortuoso.
Composta em 1917, foi gravada em disco apenas em 1928. Inicialmente, a crítica não a aceitou bem, alegando uma suposta influência do jazz, e só atingiu popularidade em 1937 com a gravação de Orlando Silva. O “cantor dos públicos” registrou a canção um ano após que João de Barro (Braguinha) escreveu a letra para que ela fosse incluída no espetáculo “Parada das Maravilhas”.
Com uma trajetória longa e variada, Bruno Patrício decidiu elaborar um arranjo usando diversas versões musicais da canção. “Escolhi os elementos que considerei mais representativos”, relata.
Choro contemporâneo
Além de trazer um repertório que reflete a memória da música brasileira, a Orquestra Pizindim demonstra que o choro é algo que vive no presente, com canções de seus próprios músicos. Isso inclui “O pulo do sapo”, “Salve João da Baiana” e “Maxixe Pizindim”, sendo as duas últimas de Bruno Patrício.
As canções que completam o álbum são de Paulinho da Viola e Hamilton de Holanda. Do bandolinista, a Pizindim apresenta “Maxixe do César”, uma homenagem de Hamilton ao seu irmão Fernando César, violonista (7 cordas) que é parte integrante da orquestra e um nome essencial na lista de grandes músicos de choro da atualidade.
A escolha de Paulinho da Viola foi o choro “Só o tempo”, feito em 1982. A letra da canção trata sobre as vivências amorosas e o “resultado emocional” ao longo da vida. Na gravação, todos os naipes da Pizindim acompanham a voz da cantora Ana Reis, também de Brasília, uma parte da história do choro.
A gravação do álbum da Pizindim teve início em novembro do ano passado com apoio do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal. Se receber patrocínio através de outras iniciativas culturais, o disco poderá ser lançado em formato físico em LP e a orquestra irá percorrer as capitais estaduais para apresentar sua versão deste gênero musical.
Serviço
Orquestra Pizindim
– Single “O pulo do sapo” (de Léo Benon), disponível a partir de hoje nas plataformas de streaming
– Show de pré-lançamento na Escola de Música de Brasília (Teatro Levino de Alcântara), SGAS II SGAS Quadra 602, amanhã (sexta, 24), às 20h
– A Orquestra Pizindim* é composta por:
Adil Silva (bombardino e trombone)
Alex Diego (1º trompete)
André Lindolpho (Sousafone)
Bruno Patrício (saxofone e direção musical)
Enrique Sanches (também listado)
Fernando César (violão 7 cordas)
Israel Ronner (tuba)
Jéssica Carvalho (percussão)
Juninho Alvarenga (percussão)
Júnior Viegas (percussão)
Leander Motta (bateria)
Léo Benon (cavaquinho)
Nathália Marques (percussão)
Peniel Ramos (2º trompete)
Renata Menezes (clarineta)
Sérgio Morai (flauta e flautim)
Fonte: Agência Brasil